Escrevo cartas abertas para dar passagem ao que ficou entalado na garganta. Esta, talvez, tenha um motivo: a necessidade de encarar os fatos com poesia, mesmo que doa.
Um dia, no lugar onde trabalho, fizeram uma entrevista cujas perguntas me fizeram pensar enquanto eu jorrava para fora as sinceridades que, honestamente, ainda que cruéis ou frívolas, são a minha realidade. Uma delas era sobre quem eu amo. Respondi que amar era muito forte, mas que havia enorme carinho, e garanti que sou leal a essas pessoas, tanto quanto elas são comigo. Os rostos congelaram, não sei se por dó, por me acharem fria ou por acreditarem que o vazio existencial que carrego havia me roubado a mais singular das emoções, mas congelaram. Por milésimos de segundo, aqueles olhares pareciam perdidos diante da minha resposta ― Eu não estava mais presente.
Ao término da entrevista, alguns dos presentes me disseram que acharam forte eu dizer que não amava, que não havia ninguém por quem eu tivesse esse sentimento. Mas, existem motivos para ser assim.
Amar me machucou, me feriu, me sangrou. Esse sentimento, que me moldava, acabou por me destruir. Fui ferida, contudo, também me deixei ferir. Atirei-me do penhasco por amar e, lá embaixo, ninguém me esperava ― eu mesma havia ficado por último na fila do meu próprio cuidado. Não foi culpa da outra pessoa: foi a minha inocência em amar os outros primeiro.
Odeio quem me machucou? Não, pois sei que também os machuquei: houve uma reciprocidade cancerígena, um veneno dividido. Isso não anula o fato de eu querer que sejam felizes, que voem, evoluam, que encontrem quem os fará realmente bem, que se sintam realizados. Isso não cabe a mim e tampouco cabe odiar.
Eu amei, amei muito. Amei a ponto de dizer que era a primeira vez que sentia algo além do amor, algo mais, que eu jamais havia sentido. Isso foi ruim? Não. Guardo com carinho, mas não preciso mais.
Pode parecer que trato esse sentimento como uma roupa velha que já não quero mais vestir, mas não é isso. Sentimentos envelhecem, perduram ou se desfazem, isso não está em nossas mãos. E, como a vida, deixo pelo caminho o que já não cabe. Isso torna essa amizade ou esse amor menos importante na minha história? Não. Porém evoluir é entender quando não há mais espaço para o outro na minha redoma, e que não vale correr atrás quando o empenho é de um lado só. Há limites, mesmo para o que transcendeu o comum, para o que floresceu de um jeito belo. Fez-me crescer, fez-me ver o meu próprio caminho com ternura. E tudo o que floresce murcha: é a lei natural. Pode demorar anos, meses, dias ou até segundos, mas é a lei natural. Gosto das pessoas que caminham e caminharam comigo e sou leal a elas, mas amar é uma palavra forte que por ora, só a guardo comigo, como se guarda tudo o que é frágil e cortante: no alto, longe de mãos que não sabem segurar. E isso já basta.

