Nessas manhãs de setembro, cinzentas, chuvosas, num tempo em que as flores deveriam colorir os jardins, para muitos é apenas uma janela fechada, suada, com os respingos deslizando pelo vidro e embaçando a visão. Para ela, era um momento de recordações. E a chuva, do lado de fora, parecia chorar por ela mesma.
Naquela manhã de setembro, os sorrisos da intimidade, as frases não ditas, mas sentidas, voltavam como um segundo aguaceiro. Os abraços enquanto se jogavam na grama dos parques, os olhares cúmplices e queridos. Ela relembrava a distância necessária, as brigas sem sentido e os cafés sem nada dito, só os sorrisos acalentados. Eram vícios em gotas homeopáticas, próximos e afáveis ― pingos que, como a chuva na vidraça, insistiam em não parar de cair.
Na chuva, olhando o céu, ela sorria diante da ligação não atendida. Deixara uma mensagem, sabendo que não teria retorno. Colocou então o celular em modo avião e caminhou entre as poças, os reflexos de um passado vivo, das mãos aquecidas pelo entrelaçar dos dedos. Sonhava em revê-la um dia, tão certa quanto a certeza de que, em setembro, a chuva sempre volta.
E nessa manhã de setembro, havia tanto para ser dito: a lembrança do peito a parar ao vê-la na rua, naquela passarela; o suor escorrendo pela pelo só de sentir o olhar dela em sua direção; os pescoços a virarem para manter o contato. A recordação era o sentido de terem mais um momento antes do adeus.
Nas manhãs de setembro, com o céu nublado e os guarda-chuvas tomando as ruas, como que por mágica, quem ela queria ver caminhou em sua direção, como uma reprise. E a chuva, que até então parecia querer separá-las deu uma trégua, como se também esperasse por aquele reencontro.
Os olhos presos num nó, e ela voltando ao momento exato do primeiro encontro, com a saudade pulsando, aquecendo aquele presente inesperado. Um grito parou a rua: “Me deixa ficar na tua vida, morar no teu abraço apertado, no teu beijo sem ensaio” ― e o guarda-chuva caiu no chão, como em um filme romântico, deixando as duas se molharem, agora sem pressa de se proteger de nada.
Ela não se intimidou, não se envergonhou. Com a respiração descompassada e o olhar fixo em quem desejava rever, sem esperar que o mundo se apequenasse tão cedo para aquele encontro, ali estava, parando todos naquela rua para vê-la se libertar do que guardava no peito. A corrida para os braços de quem tanto a memória, em repetição incessante, lembrava, era o doce gosto do talvez. Talvez não fossem, de fato, estranhas; talvez o adeus tivesse sido apenas uma metáfora mal compreendida, e talvez, no fim, elas só precisassem aprender a ser livres.
Naquela manhã de setembro, as duas, em um silêncio convidativo, andavam lado a lado, com as mãos novamente entrelaçadas, como se jamais as tivessem soltado. Tudo o que queriam era um café, uma conversa e a vida florescendo, colorida, como deve ser nessas manhãs de setembro. E foi assim que, na mesma janela por onde antes só se via o cinza escorrer pelo vidro, alguém, enfim, abriu-a: lá fora, o sol furava as nuvens, e a chuva, pela primeira vez naquele setembro, deixava a vista livre e clara.

