Rabiscos

De

São sete da noite, e a pilha de papéis amassados só cresce. Minha imaginação parece travar, como se a inspiração da minha vida tivesse feito as malas, pegando uma passagem só de ida para bem longe de mim. Meus olhos, cansados, miram os borrões que em seguida risco. Logo, mais uma bola de celulose se junta ao monte. Jogo a cabeça para trás na poltrona, sentindo o peso do bloqueio criativo, e decido me levantar para esticar o corpo.

Caminho até a cozinha e junto os aparatos para preparar um café. Enquanto a água está no fogo, pego o celular e deixo a música Toh Rim, de Nont Tanont, ecoar pelo ambiente. Fecho os olhos, permitindo que a melodia tome conta dos meus sentidos. Um sorriso brando esboça-se em meu rosto; movo-me devagar, embalada pelo ritmo calmo de Tanot. Quando os abro, a água já ferve. No mesmo balanço, aproximo-me do fogão, guio a chaleira até o coador e desperto o aroma do pó.

É o instante mágico em que você retorna. Uma fração do silêncio preenchido pela música traz sua presença tão para perto que quase posso ouvi-la conversar sobre amenidades. Nostalgia pura. A canção virou a trilha sonora de nossas pequenas aventuras, tudo muito bem orquestrado, harmonicamente inserido e ritmado no tempo certo.

O café pronto me lembra das nossas idas às cafeterias para falar da vida, para desnudarmos nossas dores, desejos e sonhos; duas crianças aproveitando o acolhimento de uma boa amizade. Demoro a dar o primeiro gole; a saudade me faz suspirar. A mescla daquela voz com o líquido escuro e quente parece a união perfeita, o encontro exato no tempo. Preciso colocar a faixa no repetidor para não perder o calor que agora preenche e acelera meu peito. Transbordo. Com a caneca em mãos, fecho novamente os olhos, deixando o sentimento ditar o passo: cada movimento se torna uma cadência da melodia, um sentido vivo do que se foi.

Nesses passos medidos, retorno à mesa. Olho para os rascunhos rejeitados com um sorriso doce, lembrando das discussões bobas que sempre terminavam em abraços calorosos. Quando foi que isso acabou? Ajeito a caneca estrategicamente próxima ao celular, onde a música continua a circular. Sento-me e retomo a escrita. Uma hora mais tarde, quando acredito finalmente ter terminado, a melodia cessa abruptamente para dar lugar a uma vibração na tela. Uma ligação. Você. Levanto-me num salto e vou até a janela, observando o movimento miúdo da rua enquanto conversamos. Ao desligar, meus olhos voltam-se para a mesa. O sorriso cresce espontâneo. Caminho até ela, resgato os papéis que antes risquei e percebo que a pilha já não me assusta mais. Minha inspiração voltou. Você.