Afeto Prisioneiro

De

Tirei as cartas sobre o nosso amor e elas me contaram uma história na qual o tempo se esticou; o que duraria uma vida, perdurou por várias. De encontros em rios a danças em meio a jardins, tudo tinha seu lugar: os sorrisos, os beijos e os abraços que tiravam o ar. Era a magia da presença, filtrada pelos símbolos da cartomancia. 

A cada lâmina virada, uma nova lembrança da qual só elas sabiam o segredo. As cartas não escondem nada; preferem a narrativa com todas as suas nuances. Mas o passado aquarelado e doce ruiu. Dos sentimentos disponíveis, dos toques e olhares acolhedores, sobrou o vazio, um limbo com retrogosto inacabado. As cartas foram sinceras e contaram o que deveriam contar. 

Ao presente chegamos, e elas novamente não foram doces. Os pedregulhos mostrados no caminho eram os desafios que deixamos de enfrentar. A chave que nos libertaria para sentir perdeu-se, e a casa que parecia segura virou nossa prisão, um cárcere que transformou o amor em refém e a indisponibilidade em moeda afetiva. O que antes era um fio de seda de vidas, atando-nos no mais puro sentimento, converteu-se em arame farpado: cada puxão, mesmo sem querer, cravava ranhuras profundas. 

As cartas, sábias, decidiram que o futuro deve ser uma escolha. Em vez de prever o amanhã, deixaram apenas um conselho sussurrado: o passado deu seu fruto, e o presente não o quis vingar. Deixe o futuro para depois, mas semeie agora o que realmente precisa colher. 

Amor-próprio.