Âncoras de Papel

De

Luar sobre o Lago Lucerna com o Rigi ao Fundo - William Turner

Vejo as ondas baterem no píer enquanto estou sentada na encosta, admirando o céu se fundir ao mar. O sentimento, embora calmo, faz lágrimas insistentes descerem. É um píer vazio, sem nenhum barco atracado. De algum modo, mesmo a cena sendo majestosa, sinto o peso do sal corroendo o que restou de nós. O amor morreu em doses homeopáticas enquanto eu esperava por uma âncora que nunca tocou o fundo.


Minhas lágrimas descem frias, cortantes como lâminas afiadas, mesmo diante de um céu que se alaranja ao fim da tarde. O mar apenas repete as cores calorosas do horizonte, mas em mim, tudo ainda é um mar gelado e fundo. Existe um vazio no peito e uma visão turva. Não há som maior do que o das ondas batendo na estrutura de madeira, como se engolissem os cacos do meu coração, varrendo para a profundeza algo que insiste em não se findar.


Tento sorrir, ser forte, mas no fim sou apenas uma guria que decorou o mapa de um navio que preferiu o lodo do próprio porto. Eu, na minha esperança teimosa, acreditei que ele alcançaria este píer, que um dia estaria aqui. Sozinha, me levanto da encosta. Olho uma última vez para o encontro das águas, agradeço pelo que jamais aconteceu e me despeço.


O salitre agora impregna minha pele, misturando-se ao rastro seco das lágrimas. O horizonte, que antes parecia uma fronteira intransponível, agora me parece apenas uma linha que eu também posso cruzar, mesmo sem velas ou mastros. Se o porto dele era o medo da partida, o meu píer será, a partir de hoje, o meu ponto de lançamento, e não mais a minha sala de espera.


Quem não navega o mar que deseja, nunca saberá para quais novas rotas o destino pode levar.