Demorei a perceber o quanto tua presença me transformava, o quanto teu calor me aquecia o coração. O quanto me arrepiavam teus toques, o quanto me deixava encantada teu sorriso. Não entendia esta ânsia em te ver, a saudade dos abraços, dos teus dedos entrelaçados aos meus, dos teus afagos em meu cabelo.
Perdoa-me. No labirinto do teu mistério, desejei me perder, sem ter plena noção. A chave girou no instante em que mergulhei em teu oceano misterioso, e tu me permitiste nadar em tuas águas mais vulneráveis. Revelaste-me a parte mais delicada do teu mar. Ali, naquela profundeza, meu coração descompassou, disparou como um raio incandescente.
Contudo, minha mente hesitava, incrédula. O emocional ansiava por se jogar, mergulhar ainda mais fundo em teu mar, enquanto o racional, teimoso, não o admitia, não o aceitava. Ali, paralisei. A caixa de Pandora fora aberta. Meus medos e inseguranças mais sombrios emergiram. Tive que silenciar o coração, que pulsava rebelde por não ser ouvido, e conter a mente, bombardeada incessantemente por meus próprios demônios. Sincronizei-os e, num grito uníssono que ecoou em meu ser, confessaram: Tu a amas!
Como Fernando Pessoa disse em “O Presságio”:
“O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar para ela,
Mas não lhe sabe falar.”
E era exatamente assim que eu me sentia, toda vez que tua mão segurava a minha. Como ímãs perfeitos, nossas mãos se encontravam, se enlaçavam, recusando a partida. Quando teus olhos, pérolas negras e profundas, fitavam o âmago de minha alma. A ânsia era gritar o que sentia, mas da minha boca mal escapava um sussurro da verdade. O amor, tesouro escondido entre o peito e o palato, o “eu te amo” ali permanecia, implorando para ser libertado em um grito.
E agora, ciente desta avassaladora verdade, o peito oprime, clama, roga por liberdade. Ele só anseia por ser livre, para finalmente confessar o sentimento que ali, tão zelosamente, guardei. Mas, ainda refém dos demônios que libertei daquela caixa de Pandora, hesito, sem saber em que momento meus lábios ousarão proferir o que meu peito tanto anseia por te entregar.
Contudo, em uma simples carta, minha alma transbordou. Tu a lerias em voz alta para mim?

