Náufrago do Sentimento

De

Aquele aperto no coração, seguido do abraço que um dia foi reconfortante. Apaixonei-me por quem não devia. Foi como um sonho vívido, navegar por sensações desconhecidas e intensas. Em mar aberto, sob o sol que iluminava tudo, senti uma alegria inicial, até perceber a profundidade inesperada daquele sentimento.  

Então, o mar antes calmo se tornou revolto. Ondas furiosas batiam contra o casco da embarcação, como pedras lançadas com força, sacudindo-a violentamente para frente e para trás, num ritmo descomunal e assustador.  

Enquanto o sol se despedia no horizonte e a lua iniciava seu reinado prateado, eu pedia, num fio de voz, que as águas levassem meu coração até ela. Era quase uma prece sussurrada ao mar, sob o olhar das estrelas que pontilhavam o céu e o brilho da lua que insistia em romper a tormenta.  

Aquele sentimento, tão puro, doía. Doía como um corte profundo, autoinfligido. Doía pela certeza da impossibilidade, pela compreensão amarga da perda. Doía pela falta de coragem, por ter permitido que tudo chegasse a este ponto, e agora o coração se recusava a silenciar, preso a um sentir do qual não conseguia me libertar.  

As ondas a levaram para longe – ondas que minha própria inação ajudou a criar. E agora, só me resta pedir baixinho: levem a ela o meu coração.  

Como naquela melodia antiga:

Rasga as águas do mar sem direção

O sol se despede longe

O céu cheio de estrelas faz senti-la perto daqui

Quando o mar então cair

Um pedido faço a ela em vão

Leve pra ela o meu coração.1  

Para que ela saiba, onde estiver, que este coração um dia lhe pertenceu por inteiro. Se o futuro me permitir olhar para trás, mesmo que entre lágrimas, poderei dizer: Por ti, meu coração pulsou como nunca antes. E agora, adormecido, ele ainda escuta o eco daquele pedido sussurrado ao vento, talvez em vão.   Levem para ela o meu coração. Que com ele sigam as batidas, o calor e a paixão que um dia foram nossos. Agora, ele repousa quieto, mergulhado na saudade, esperando secretamente que um dia possa despertar e voltar a bater.

  1. Verso da música Nau dos Amores – Terra Celta
    https://youtu.be/LfY1k1Lb8-Y?si=6tnF4clKQYIu-X3T ↩︎