A Carne

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Entre chupões, lambidas, mordiscadas, rendo-me. Sou um pedaço de carne em suas mãos ávidas. Puxões de cabelo, o toque que beira o enforcamento: um nó de tesão e dor que me asfixia, me molda ao seu desejo. Sua pele, tão macia, agora marcada pelos meus arranhões; a minha, ardendo em vermelho sob seus tapas e apertões. Na madrugada densa de paixão e êxtase, você revela seu trunfo, um ás na manga que me rasga e me completa. Prazer ímpio, carnal, assustadoramente fugaz.  

O quarto de motel barato, com seu cheiro de desinfetante e solidão, torna-se o cenário do nosso atrevimento. Mas a sensação persiste, incômoda, sob a pele febril: sou apenas carne para você. Um corte preciso. Como um açougueiro habilidoso, você seleciona os melhores pedaços, fileta minha entrega, leva o que deseja e descarta o resto sem sequer olhar. É assim que me sinto enquanto você me devora, mesmo que eu me perca em cada abocanhada sua.  

Noite após noite, o mesmo ritual. O perfume da dor e do prazer impregnando o ar. E a manhã seguinte, invariavelmente igual: você, já vestida, partindo em silêncio. Deixa o quarto pago, um gesto frio de cortesia para que eu possa recolher meus pedaços e ir embora sem outros embaraços. O vazio que me engole depois é tão pesado quanto a sua frieza calculada durante nossos encontros, por mais febris e pecaminosos que fossem. Meu corpo, sua peça de carne mais valiosa – mas apenas para aquele jantar, para aquela noite efêmera.

Os dias escorrem. A chama daquelas noites, antes um incêndio, agora vacila, quase extinta. A solidão torna-se minha única companhia constante. Você me consumia como um vício; cada toque seu, antes eletrizante, agora corta, seco, distante. Simplesmente sua carne. Nada mais. O ímpeto de te procurar murcha, dando lugar a desculpas esfarrapadas, a uma fuga desesperada dos meus próprios desejos que antes espelhavam os seus. Sua imagem de Afrodite implacável dissolve-se, e no espelho, vejo apenas meu rosto, pálido e confuso.  

Começo a me soltar, a me afastar do seu cheiro, da memória do seu corpo. Imponho a mim mesma uma nova vida, um amor-próprio que precisa ser maior, mais forte do que a sombra do que senti por você. Meses se arrastam. Não ouço mais sobre suas caçadas, sobre qual nova peça de carne você se dedica a apreciar, degustar, saborear. Silêncio. Você nunca ligou, nunca disse nada, nunca sequer sorriu naquela época. Como sempre.  

No início, a sensação de ter sido usada, um objeto manipulado, era aguda. Mas o tempo, esse curandeiro lento, foi desatando os nós que me prendiam a você, ao seu ser enigmático. A névoa que envolvia nossa dinâmica começou a se dissipar. A ilusão estilhaçou-se, e os contornos tóxicos desse veneno luxurioso ficaram nítidos, claros. Seu olhar penetrante já não me alcança, não assombra meus sonhos, não é mais meu desejo. Sua pele, seus lábios cor de sangue, seus toques, apertos, arranhões – ecos distantes que já não importam.  

Até que um dia, anos depois, ao sair daquele bar antigo que frequentávamos, meu ombro esbarra no seu. Nossos olhos se encontram. Um choque elétrico, um desespero mudo. Você, acompanhada. Eu, sozinha. Paralisadas, sem palavras, sem ação. O feitiço antigo parece querer me puxar de volta, mas resisto, me desvencilho da versão antiga de mim que você criou. Você apenas se vira e vai embora.  

Continuo ali, parada, observando sua figura se afastar. Então, no último instante, antes de sumir na esquina, você vira o rosto. E sorri. Um sorriso rápido, indecifrável. A surpresa me atinge, um arrepio que não sei nomear. Naquele instante, uma percepção incômoda, talvez dolorosa: para você, talvez eu tenha sido única. Ou talvez fosse apenas o sorriso do caçador satisfeito. Fico com a dúvida, e pela primeira vez, sinto que a resposta já não me define.