O Chão que me Nomeia

De

Esta é uma história para março, mas que, na verdade, é o primeiro suspiro de uma vida inteira. Confesso: não tenho mais fôlego para os meios modernos de comunicação. As redes sociais pesam sobre meus ombros como um fardo cansativo; sinto uma falta crônica de disciplina e, talvez, de vontade para entender as engrenagens frias desse mundo virtual. Meu modo de operação é o offline. Eu funciono no mundo real, no carnal, no palpável. Enquanto deixo minhas redes ao relento, sigo vivendo onde sinto que finalmente pertenço. É no barro e no vento que encontro minhas respostas e meus devaneios.

Contudo, hoje o silêncio não basta; preciso registrar o quão profundo é, para as minhas entranhas, vivenciar os vínculos que crio ao entrar nas aldeias indígenas. Para quem me conhece desde menina, minha ligação com os rios, os mares e a flora nunca foi segredo. Mas só agora, com o peso da idade adulta, decidi mergulhar no sangue da minha família — especificamente na história da minha avó materna — para resgatar o que nos foi arrancado.

Nessa jornada de resgate e ancestralidade, entendi que não bastava ler sobre minha árvore genealógica. Eu precisava sentir o chão. Precisava aprender a ouvir, a conversar e a me ligar aos povos que fizeram esta terra ser o que ela é, muito antes de ser chamada de outra coisa. Pindorama.

Resolvi que este seria o ano da minha investigação, o ano de descobrir a qual povo originário minha avó pertenceu. E, para minha grata surpresa, uma aldeia multiétnica em Guarulhos capturou meus pés, minhas mãos e cada centímetro da minha alma. A cada encontro, sinto uma irmandade que me percorre a espinha como um calor ancestral. Ali, comecei a entender que meu propósito não nasceu ontem; ele estava latente em mim há anos, esperando o momento exato para romper a crosta e brotar. Tudo tem sua hora de florescer.

Não estou romantizando a dor alheia. Deixo claro que, como em qualquer comunidade, eles enfrentam a labuta diária e os seus próprios abismos. Isso não os faz maiores ou menores; apenas revela o quão humanos e resistentes são. Eles lutam para que a história de seus povos não seja pulverizada pelo esquecimento, como tantas etnias que hoje são apenas sombras e lendas sem voz.

Reconhecer o que minha alma ansiava há anos foi o meu maior ato de liberdade. Isso não apaga as feridas ou as batalhas diárias, mas abre um leque de profundidades sobre quem sou e o que pretendo deixar como rastro por aqui. Este desabafo sobre pertencimento é, na verdade, um mapa; se conhecer é a única forma de sobreviver ao que nos envolve. Grande parte do que sou hoje nasceu justamente do que me foi negado: o acesso à história real da minha linhagem materna.

Essa sensação de que algo faltava sempre me empurrou a viver várias vidas. Nunca fui de ficar parada; mudei de lugares, de empregos, convivi com o diverso e estudei o impossível, mas nada parecia preencher o centro. Não que hoje, aos meus trinta e cinco anos, tudo faça um sentido absoluto, mas o sentimento é de que finalmente parei de correr para o lado errado. Estou entendendo a mim e às histórias que foram escondidas dos meus familiares. Até hoje, me reconheço como parda — não por amor ao rótulo, mas por respeito aos que vieram antes; não acho justo me dizer indígena sem honrar o povo específico ao qual pertenço e sem ter ajudado na luta. Mas agora, com esse levante interno, faço questão da retomada. Quero virar voz para aqueles que sempre foram os guardiões desse solo. Como? Não sei, mas aprenderei.

O vazio que carrego na alma talvez jamais seja preenchido por completo; ele é fruto das minhas próprias frustrações e decepções. Mas minha alma não é feita apenas de vácuo. Existe nela um espaço sagrado que agora se preenche com cânticos, com a batida forte dos pés no chão, com o cheiro da terra batida e o calor das fogueiras. Há uma voz ancestral que grita dentro de mim: “AQUI VOCÊ É O QUE PROCURA”. É nessa parte da alma que eu me encontro. E é por ela que, finalmente, escolhi viver.

Para quem quiser conhecer a aldeia que cito: https://www.instagram.com/filhosdestaterra