Vernissage Particular

De

Duas mulheres no ato de se beijar

Estamos em uma das salas da galeria. O aroma das tintas e o murmúrio das histórias nos envolvem, mas me perco em outros mundos até pousar o olhar em você: a obra mais vívida e magnética daquele lugar.

De repente, a paisagem se transmuta. Vejo você caminhando em minha direção, um sorriso ambíguo e o tempo em suspensão. Você surge no limiar entre o mar e o rio, exalando um cheiro de sal, terra e volúpia. O sol reluz no seu corpo dourado, compondo um quadro tropical, bruto e sedutor.

Sinto seus passos felinos. Seu olhar místico me engole sem que precise me tocar. Você me rodeia, cercando a presa que anseia pelo abate. Suas mãos ágeis me atraem para o seu calor; nossos corpos se roçam, despertando incêndios que a pele mal suporta. Seus dedos deslizam pela minha epiderme, tateando a urgência do momento, enquanto sua língua saboreia cada curva, como se eu fosse um território finalmente conquistado.

Imagino o aperto firme em meus cabelos, o puxão preciso, a mordida que percorre o lóbulo da orelha e desce, úmida, até o busto. Sob o sol que nos despe e a água que nos reflete, somos tintas que se fundem em uma tela abstrata de suor, manchas e êxtase. Um eco de gemidos que se dissolve no ar.

Retorno à sala. Você me observa com curiosidade, tentando decifrar o mistério do meu silêncio. Sorrio e toco seu rosto, delicadamente. Apenas imagine: somos a melhor moldura desta galeria. Exatamente como acabei de criar em mim.