A mesa parece pequena demais para o papel que repousa entre nós. O envelope, uma dobradura simétrica lacrada com cera. Empurro-o em sua direção, sem hesito. Talvez eu devesse temer o que você lerá, ou o modo como interpretará a tinta gasta para dizer o que seus olhos já sabem. Mas há algo naquela carta que ultrapassa as palavras: há um coração que finalmente encontrou o próprio ritmo. É o registro de quem aprendeu a hora de partir e a urgência de amadurecer a própria jornada. Não se trata de apagar quem amei, muito menos de fugir; é apenas permitir que o rio siga seu fluxo. Só porque a água banhou minha margem, não significa que deva inundá-la para sempre. Ela tem seu curso, e há uma magia silenciosa em deixá-la seguir.
Você recebe o papel e um sorriso suave surge, agradecendo a delicadeza do gesto. Peço que leia agora, sem pressa, indiferente ao fato de estarmos frente a frente. O estalo da cera se quebrando é o único som entre nós. Antes de mergulhar nas linhas, seu olhar busca o meu; depois, seus olhos se fixam em cada parágrafo, tingindo-se com o que escrevi. Do outro lado, eu me perco no contraste entre sua concentração e o café que esfria na xícara. Observo a vida através da vidro da cafeteria: duplas, trios, passantes solitários. O cenário lá fora é uma aquarela de azul e raios de sol, uma vida pulsante em suas várias faces. Esse calor externo encontra eco em meu peito, aquecendo-me mais do que qualquer bebida poderia.
Sou resgatada desse transe pelo toque de sua mão na minha. Pisco, ajustando o foco para o presente, e deixo um sorriso fluir. Você me estuda em silêncio, tentando ler as entrelinhas da minha alma, buscando respostas que a tinta não deu. Faço um afago em seus dedos e, antes de qualquer explicação verbal, busco o horizonte colorido da rua uma última vez. Quando volto a encará-la, minha voz flui calma, traduzindo o que o papel iniciou. Você ouve sem desviar o olhar, quase sem piscar, como se temesse que um movimento brusco pudesse quebrar o encanto do momento. Ao concluir, selo o entendimento: aquilo não é um ponto final, mas um recomeço. Para mim, ao menos, é a abertura de um novo ciclo.
Nos levantamos. O caminho até os nossos transportes é preenchido por trivialidades, o tipo de conversa leve que flutua sobre as profundezas. Ao chegarmos ao destino, o que impera é um silêncio confortável e sorrisos que não precisam de tradução. O abraço de despedida é demorado, um agradecimento mudo pelo tempo compartilhado. Nos olhamos uma última vez e seguimos. Caminho sem a necessidade de olhar para trás, sentindo o sol no rosto. O recomeço já está em curso. Talvez essa água nunca mais toque minhas margens, mas o leito que ela moldou em mim agora é solo fértil para o que virá.

