Memórias

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Memórias de vidas que não vivi, dos toques que não provei, do coração acelerado que não senti. Memórias da dança que não dancei, do beijo que não tive.

Olho no espelho e vejo teu reflexo. Vejo tuas linhas, tua ternura estampada no vidro prateado. Sinto tua presença sólida ao meu lado, teu perfume a me inebriar. Os pés movem-se sozinhos, como se você me conduzisse numa dança invisível.

Cada passo, uma memória. Uma lembrança sua. Tudo o que antes parecia sem sentido evapora-se, transformando-se em pele, em calor familiar. Teu olhar profundo lança-me ao abismo do desejo e da reação. Meu corpo entrega-se, como se lhe pertencesse desde sempre. Como se meus músculos recordassem a música, como se soubessem os passos.

Cada movimento é um resgate. Algo a que reajo sem entender, mas permito-me sentir. Rodopia-me, levanta-me, aproxima-me de ti, solta-me e desaparece. Como a brisa quente da manhã, você some. Como um sonho bom, acordo e vejo-me só, de frente ao espelho, com os raios do sol invadindo a janela e refletindo a poeira no vidro onde me vejo. Só.

Memórias de vidas que talvez não vivi esbarram no desejo latente de existir. Ou talvez tenha vivido, e tudo o que resta é o eco. Lembranças dos teus olhos despindo minha alma, das tuas mãos refazendo caminhos antigos na minha pele. Memória tátil. Do teu coração buscando o compasso do meu.

No fim, o vidro prateado devolve apenas a minha imagem solitária, arcada sob o peso de lembranças que não sei se são minhas, mas que já me fizeram feliz. Memórias de quem, em outras vidas, amei. E que, posso garantir, amarei de novo.