A madrugada mais fria do ano não me pegou pelo frio cortante, tampouco pela chuva que me encharcou. Que nada, o gelo que senti vinha de dentro, de um lugar onde uma parte de mim se dissolveu, sumiu para outro lado. Abandonou o barco em que ainda permaneço, e tocou um novo, sem sequer um alerta. Sumiu, de repente, escorregou entre meus dedos como areia fininha.
Meu pai de coração, por que você se foi assim, sem um abraço de despedida? Sem a promessa de um último joguinho de videogame? Por enquanto, você não me deve explicações. Olhei teu rosto – do japonês mais lindo e gente boa que conheci – tão calmo, em paz. Vai deixar a saudade mais difícil de esconder, com aquele sabor doce, idêntico às balas que sempre me ofertavas para levar para casa. Ah, que saudade imensa!
Ver você ali, parado, sem se mexer, me aperta o peito. Dói muito mais que um soco, um murro, mas você estava tão tranquilo. Que sono bom. Quem me dera fosse só um sono, e tudo isso, um sonho; uma pegadinha do Silvio Santos. Seria mágico, e talvez, a gente faria tudo diferente, com a pressa de um tempo que se esvai.
Japonês, levanta! Me dá aquele sorriso maroto, me leva pra apostar no jóquei, coloca aquelas músicas antigas que a gente curtia nos fins de semana. Japonês, vem andar na rua comigo, vamos lá na lotérica ver os resultados da Lotogol e Lotofácil. Japonês, nosso japonês, meu segundo pai, levanta! Diz que tá bem, diz, por favor…
Queria ser menos egoísta, talvez mais centrada, mais compreensiva. Mas a ficha não caiu. Você não vai voltar; teu sorriso, agora, é apenas uma lembrança gravada na memória. Teus abraços, conselhos e sermões são ecos de um passado recente, doces lembranças que a dor não ousa apagar.
Japonês, Titio, amigo, seu Valter… Desculpa, não tô sabendo lidar com sua falta. Mas te prometo, com a alma em pedaços, que você jamais vai morrer em mim.
De sua eterna filha postiça… Meus mais sinceros cumprimentos e agradecimentos. O senhor me mudou muito, e eternamente serei grata por tua existência.

