No dia em que a chuva resolve dar o ar da graça, resolvo também tomar aquele veneno que comprei há alguns dias. Abro o frasco com mãos firmes, talvez firmes demais. Despejo o líquido incolor e inodoro em um copo e diluo-o em água, um gesto quase mecânico, para não queimar a garganta ao descer. Bebo de um só gole, sem hesitar, sem reclamar, sem questionar, sem sequer sentir nojo. O vazio do copo encontra a superfície fria da mesa e ali fico, sentada, imóvel. Olho pela janela, a cortina de água lá fora, enquanto espero o efeito do veneno, espero que ele me corroa por dentro. Uma vida inteira passa pela mente em flashes desordenados: fragmentos de risos infantis, o calor de um abraço antigo, a amargura de palavras não ditas e de portas fechadas. Doces e amargas, as lembranças dançam diante dos meus olhos fechados.
Horas se arrastam, pesadas como o céu lá fora, e o efeito prometido não acontece. Levanto-me da cadeira, as pernas um pouco trêmulas pela inatividade, e começo a caminhar de um lado para o outro na pequena sala. Um nó de ansiedade aperta minha garganta, minhas próprias mãos tremem enquanto as passo pelo rosto, num gesto de crescente aflição. Era para eu estar caída, estatelada no chão frio, inerte. Mas nada. Continuo aqui, de pé, respirando. Fixo os olhos na janela novamente. O céu cinza continua chorando sua melancolia líquida, e eu ali, uma espectadora irônica da minha própria tragédia falhada, esperando que o veneno, enfim, cumpra seu papel. Carros apressados rasgando poças d’água, o trânsito lento formando rios de faróis, guarda-chuvas coloridos e anônimos como cogumelos efêmeros, pessoas ensopadas correndo para seus abrigos… tudo isso desfila diante dos meus olhos vítreos. A vida passa lá fora, indiferente. Tudo passa. Menos este veneno, que parece zombar da minha decisão.
Pego a cadeira, arrasto-a até a janela com um ruído que rasga o silêncio e sento-me ali, buscando uma cumplicidade improvável. Começo a confidenciar às nuvens o quanto aquele quadro cinzento lá fora não me diz nada, o quanto aquela paleta desbotada parece um reflexo do vazio que eu sentia aqui dentro, mas que teimava em não se completar. Continuava minha prosa silenciosa com as nuvens, que, impassíveis, permaneciam caladas. Não opinavam, não julgavam, sequer acusavam. Era um diálogo inútil, que só reforçava o quanto eu não pertencia àquela cena, àquela espera; o quanto tudo era absurdamente insatisfatório, e como a espera se tornava mais um fardo, mais uma prova da minha falha iminente.
Percebendo que nada acontecia, a frustração crescendo por ter desperdiçado preciosas horas naquela agonia inerte, pego o frasco novamente. O vidro parece pesado em minhas mãos, o peso do fracasso esmagando meus ombros. Fracassada por não conseguir nem mesmo o simples: seguir o plano até o fim. Meus olhos buscam, enfim, as letras miúdas do rótulo, antes ignoradas na pressa de acabar com tudo. Uma palavra salta aos olhos, inesperada, quase uma piada de mau gosto. Volto os olhos para o céu novamente, agora apenas cinza, sem lágrimas visíveis. Sento-me novamente na cadeira em frente à janela. Um suspiro escapa, carregado de uma decepção quase cômica, se não fosse trágica.
Comprei veneno, mas me venderam amor.

