Dancing With A Stranger

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Sexta à noite. Sentada num dos bancos do bar, observo de soslaio o movimento hipnótico do pub. O sussurro das vozes, o tilintar dos copos, tudo se funde numa sinfonia indistinta que serve de pano de fundo para a minha própria melodia de melancolia. Do outro lado do balcão, o barman me serve a bebida pedida, um sorriso que tece redes de segundas intenções. Agradeço com um leve aceno de cabeça, um gesto automático que não alcança a superfície da minha alma, e volto a me perder no turbilhão de desconhecidos.

A música envolvente, um pulso vibrante que ecoa pelas paredes, desperta nas pessoas o desejo incontrolável de se render à dança, de se entregar ao agora. E em mim, a urgência lancinante de arrancar você das amarras da minha mente, de extirpar a sua presença que teima em habitar cada recanto do meu ser. Bebo devagar, cada gole um esforço para afogar a memória, mas o líquido amargo apenas acentua o vazio. Fecho os olhos, e é como se a melodia se transformasse em um rio, me arrastando ainda mais fundo pelas correntezas das lembranças de você.

Seu corpo, um desenho perfeito contra o meu, as mãos, antes delicadas, agora um rastro de fogo a deslizar pela minha pele. A testa colada à minha, um universo particular que se formava na penumbra. A memória vívida de dançarmos em simbiose, dois corpos uma só alma, faz meu corpo aquecer, uma brasa incandescente sob a epiderme fria da sua ausência. É um paradoxo cruel, o calor que irradia da lembrança e o frio cortante da realidade.

Abro os olhos, a necessidade quase física de me jogar na pista, de tentar apagar seus toques fantasmais da minha memória com o atrito de outros corpos. Com o ritmo frenético que pulsa lá fora, que explode em cada batida do grave, mas que se recusa a ecoar aqui dentro, onde o silêncio da sua falta grita mais alto que qualquer canção.

Na pista, fecho os olhos novamente, permitindo que a música, gradativamente, tome conta do meu corpo, moldando-o. Meus braços sobem, desenhando arabescos invisíveis no ar denso do pub, como se tentassem capturar a essência da liberdade. Enquanto minha cintura ondula, transformando minha coluna numa serpente sinuosa, talvez um pouco desesperada, buscando um antídoto para a dor que me corrói. Movimentos sedutores para o mundo lá fora, um nó apertado por dentro, como um laço que me sufoca lentamente. Desço os braços, abraço a mim mesma, toco minha própria pele, num esforço inútil para recriar a textura do seu toque, para sentir a familiaridade que se esvai como areia entre os dedos.

Meus movimentos, uma dança de luto e desejo, atraem olhares; percebo-os quando abro os olhos. Há quem saboreie minha dança, como um banquete visual, alheios ao tormento que me consome. Mordo os lábios, forço um sorriso charmoso que não alcança meus olhos, desço quase até o chão e subo, flutuando na batida, um espectro de leveza.

Noto uma silhueta se aproximar, um vulto que emerge da névoa de corpos suados. Seu sorriso enigmático me intriga, um convite silencioso a um abismo desconhecido. Por um instante de fraqueza, de desespero por um escape, permito que a distância diminua, que o universo encolha entre nós. O estranho, com uma audácia que me desarma, reduz o espaço entre nós, puxando-me pela cintura, um gesto familiar e perturbador.

Seu corpo colado ao meu me acende, por um momento fugaz, me anima com uma fagulha de vida. Acompanho seus movimentos, sua malemolência quase familiar, um eco distante da sua presença. Não há palavras, apenas olhares que se cruzam, um diálogo mudo de desejo e aventura, perigoso e vazio ao mesmo tempo, como um copo de água oferecido a um náufrago no meio do oceano.

Mas, ao fechar os olhos, é você. Sempre você. Sinto o seu cheiro fantasma, uma miragem olfativa que teima em me assombrar, o peso da sua mão que não está ali, uma ausência que pesa mais que qualquer presença. O calor aumenta, não o do corpo do estranho, mas o da minha própria paixão por você, a vontade dilacerante de que fosse você me guiando pela cintura, tocando cada curva do meu corpo.

A intensidade dele, aproveitando minha entrega momentânea, também cresce, como uma chama que se alimenta do ar rarefeito. O toque leve que arrepia, o roçar do queixo pela linha do meu maxilar… gestos que ecoam os seus, que me lançam num labirinto de memórias e sensações. Tudo, cada mínimo gesto, cada respiração, cada batida da música, me leva de volta a você, um ímã invisível que me puxa para o passado.

A música começa a se dissipar, nossos olhares se encontram de novo, e por um momento fugaz, uma faísca de esperança tola, uma miragem no deserto da minha alma. Acreditei que o estranho era você, que de alguma forma mágica e cruel, você estava ali, que a todo momento tinha sido você, uma brincadeira do destino, um milagre. No entanto, assim que soa a última nota, a melodia final de uma canção que nunca será a nossa, o estranho me rouba um beijo. Tão intenso e apaixonado quanto os seus costumavam ser, um eco, uma cópia pálida da original. E, do mesmo jeito que chegou, ele se vai, dissolve-se na multidão, como uma ilusão que se desfaz ao toque da realidade. Tão igual a você, que também se foi, deixando apenas a melancolia e a sombra de uma dança que nunca mais será igual