A carta que deveria mandar

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Eu deveria mandar a carta que deixei guardada no fundo da gaveta da escrivaninha.

Deveria.

Nela contém tudo, simplesmente tudo que você merecia escutar.

Ler.

Todas as palavras rudes, grosseiras, frias que tanto deixei de falar, apenas para agradar teus ouvidos. Deveria mandar a carta que deixei guardada, lá encontra-se todo o veneno e maldade que uma pessoa poderia ter. E não, não falo de mim. E sim do ser transfigurado que viveu ao meu lado. Do ser que se apossou do meu coração e quando tudo terminou, jorrou veneno para ninguém mais poder tocá-lo.

Em palavras curtas ou singelas, escrevo sobre alguém que, de maneira pensada, tentou me apunhalar. Alguém que tampouco se importou com a dor alheia, apenas desejou ferir mais.

Não era só apunhalar pelas costas.

Era rasgar a carne e na profundidade da lâmina, girá-la, para a dor ser insuportável. Para a dor dilacerar minha alma.

Fui ingênua, deixei para saber depois, depois que me senti forte suficiente para escutar. Depois que a dor da perda havia diminuído, a dor da culpa, a tristeza do não se ter. No momento certo, soube o que precisava saber. E o quanto não mereço mais sofrer.

Ali, naquele momento de descobertas, o véu da culpa caiu e todo e qualquer amor que um dia depositei, secou. O que sobrou foi o vazio. Nada acima ou abaixo, somente vazio.

Eu deveria mandar a carta que deixei guardada no fundo da gaveta da escrivaninha, só assim você entenderia. Não faz mais parte da minha vida, talvez, nunca tenha feito e só agora, somente agora consigo ver. O circulo de dor acabou e para mim, você morreu.