Chego em casa, vejo você no sofá, deitada, olhando para o teto. No mesmo sofá onde conversávamos sobre a vida. Deitadas uma na outra, ou apenas sentadas, escutando o que uma ou a outra tinha para contar. Você permanece na mesma posição, mesmo que já esteja próxima, não há um movimento para me olhar, para me ver. A beijo na testa, mesmo sabendo que não haverá reciprocidade.
Vou ao quarto pego um par de roupas e me direciono ao banheiro. O local onde passo o maior tempo. Tentando limpar as dores, colar os pedaços quebrados, os pedaços do espelho da minha alma. Sei que não estou no meu melhor estado, sei que o que tento limpar, não há possibilidade. Como uma viciada em reabilitação, tento permanecer limpa e espero que a água desse chuveiro faça isso por mim. Mesmo sabendo que não o fará.
Sinto cada fino fio das pontas quebradas, elas me marcam, me cortam. Eu tento, tento me sentir nova, com aquela água escorrendo por todo o meu corpo. Mas tudo é tão pesado, que não sei se aguentarei. Queria guardar meu coração em um lugar seguro, onde a água pudesse lavá-lo, deixá-lo novo, intacto. Queria apenas que esse chuveiro pudesse fazer esse trabalho. Mas é tudo tão pesado, que não sei se aguentaria.
Cada gota dessa água, me faz lembrar que você está na sala, no sofá, olhando para o teto. Só queria que ele me limpasse, que renovasse. Termino o banho, limpo o espelho embaçado, olho o péssimo estado que me encontro. Queria apenas consertar meus pedaços quebrados, e pode sentir que a água lavou as dores, lavou minha’lma. Será que você notou como cheguei? Mesmo que nada tenha me dito?
Abro a porta e novamente miro o sofá, você não está mais lá. Não há mais nada de você lá e nem em outros cantos. Sorrio, um sorriso despedaçado, um sorriso só. Queria manter meu coração em um lugar seguro, para que ele pudesse ser feliz. Mas a saudade o machuca e eu, como uma alma quebrada, tento consertar os erros que cometi. Igual uma viciada em recuperação, tento me manter limpa, mesmo com tantos cacos espalhados.
Talvez, só talvez, quando conseguir consertar os pedaços quebrados, terei um dia ensolarado novamente. E meu coração poderá, assim, respirar e sentir que a água daquele chuveiro o limpou. Limpou dos erros que cometi e se libertou da dor que eu o enclausurei.

