Passa da meia-noite, fico observando os perfis das pessoas que permanecem na rua solitária nesse horário. Elas parecem tão solitárias quanto o cenário bucólico a qual vejo. As ruas estão quase vazias. Alguns apartamentos dos prédios ao lado estão, como eu, ainda acordados. Um frio suportável da madrugada envolve o ambiente. Poucos carros vagam rumo, talvez, às suas casas. E um silêncio predomina. Silêncio ensurdecedor.
Perco mais algumas horas olhando aquela cena, imaginando outros cenários, algo mais alegre, mais pessoas, sorrio para minha alucinação temporária. Como um momento de quietude, paz, poderia virar esse inferno solitário que apenas me afugenta e desanima? Viver só em um apartamento, oras nem o canto dos passarinhos ou do vento soprando animam. Olho para o relógio sem uma resposta clara, vendo às horas passarem, já são 3h da manhã. E nada do sono me arrebatar.
Decido fazer um chá e ler algum livro, mesmo repetindo capas. Sento-me no meu sofá e ajeito-me. Deixo a caneca na mesa de centro. Coloco o livro iniciado em minhas pernas cruzadas, como uma boa criança que sou. Em determinado momento, uma folha cai das páginas, paro a leitura e seguro nas mãos essa pequena e frágil folha.
Nunca tinha a visto, será que li este livro e deixei anotações? Ou, sou tão distraída que usei folhas como marcação? Desdobro a folha, encontro sua letra. Aquilo me pega desprevenida, me surpreendo. Lembro-me que pouco lia, meus livros não à apetecia, eram como cacarecos, só estavam ali como souvenirs para seus olhos. Dou um leve sorriso esganiçado, ainda sem compreender como essa carta parou aqui, nesse livro.
Engulo seco. Me vejo automaticamente lendo cada linha desta folha azulada. Cada traço seu é lido com atenção, cada carinho discorrido ali, me fazia ansiar por seu toque. Você desfiou nessa carta, tudo que passamos. Parecia um interminável voo pelo mundo, parando em cada ano, cada mês, em cada momento maravilhoso que tivemos. Lembrou da nossa viagem. Será que você ainda lembra dos abraços, olhares e sorrisos que dávamos uma para a outra naqueles dias? Ou, do restaurante a qual jantamos? Me pego com essas lembranças dançando lentamente por minha memória e meus olhos.
Os momentos de amor, súbitas e tão aguardadas cenas de amor. Mordi até meus lábios com a lembrança fugaz daqueles momentos. Você descreveu cada toque, cada carinho, cada sensação, cada suspiro que tivemos. Nessa hora da leitura perdi o chão. Incrível como essa folha, me pareceu mais divertida do que o livro. Me levou para as lembranças mais calorosas que tenho, me levou para você.
Assim que termino, dobro novamente a carta e o guardo no livro, respiro profundamente, absorvendo tudo. Jogo meu corpo para trás. Deixo minha cabeça no encosto do sofá e meus olhos para o teto. Sinto cada palavra, frase, parágrafo que você desenhou nesta folha. Não sabia que algumas palavras fariam meu coração acelerar, fariam com que minha respiração ficasse descompassada. Como seu meus pulmões não conseguissem puxar o ar necessário para preenchê-los. Meu cérebro então, não queria nada além dessa carta.
Com espanto escuto o interfone. Lembro que, em determinado momento da leitura, mandei uma mensagem. Isso foi às 4h47 precisamente. Dispersa, não havia notado minha ação, estava inebriada com o que lia, estava presa em cada palavra. E não percebi quando mandei a mensagem. Pedia por você. Ansiava por vê-la, por tê-la, por senti-la. Senti a solidão e a carência pedirem por seus toques, seus abraços, seu carinho. A carta consumiu meu racional, requerendo o passado novamente.
Ao abrir a porta, sorri. Sorri por não ter caído na minha própria armadilha. Você foi o pedido das 4h47, porém, meu salvo engano, mandei a mensagem para outro. Para o presente, para quem está aqui, agora. Do passado que ansiei, das lembranças que degustei, a carta se mantém entre as páginas daquele livro. Se mantém como um lindo momento, que jamais esquecerei. Mas para as minhas insônias e meus delírios, surge um novo amor, um novo caso, uma nova vivência. A carta é a lembrança e o novo amor: o agora, a realidade.

