Quando sabemos que o relacionamento está no fim? Há prazo? Tem validade? Não sabemos, certo? Porém sentimos.
Um relacionamento de mais de uma década, iniciado no ensino médio, quando uma conversa, uma aproximação fez o mundo de duas pessoas mudarem. Duas garotas se apaixonam perdidamente, descobrindo juntas os primeiros flertes, as emoções intensas e a promessa de um futuro a dois, um futuro que parecia não ter fim. Compartilhavam sonhos, medos, segredos e a certeza de que haviam encontrado no outro a sua alma gêmea. Agora, com pouco mais de 30 anos, o que consideravam como eterno, teve seu fim.
Eram regadas por momentos felizes, outrora por discussões, isso as distanciaram, não só os corpos, mas as almas, que um dia acreditaram ser um só. Não conseguiam se conectar, não conseguiam seguir uma ao lado da outra.
Elas sentiam um aperto no peito a cada palavra não dita. Uma delas vivia distante, com o olhar perdido além dos muros da própria casa, sempre imersa em pensamentos que a outra não conseguia alcançar. Em doses homeopáticas, a comunicação foi se diluindo. De diálogos, passaram a trocas monossilábicas, sem fluidez e naturalidade. As trocas monossilábicas se transformaram em monólogos e, por fim, restou apenas o silêncio. A solidão. Não havia mais liga, não havia mais tesão, não havia mais parceria ou companheirismo. Só a solitária vida a dois. Mas houve amor, houve desejo, houve vontade, pena não ter sido suficiente para cultivar o que estava morrendo.
O momento de encontro para findar de vez aquilo que já não existia mais, trouxe à tona uma avalanche de emoções. O tempo para se escutarem, se alimentarem, se verem, se sentirem realmente. O silêncio e os desvios de olhar, imperaram por certo tempo. O ar daquele ambiente carregava o remorso, a culpa, o amor, as dores, tudo misturado, deixando camadas compreensivas dos motivos para o fim.
A conversa, mesmo dolorosa, as levava para as lembranças, lembranças mistas de dores profundas e alegrias, de parcerias constantes. Quando tudo realmente ruiu? Quando deixamos de nos bastar e nos complementar, nos tornando desconhecidas em nosso próprio lar? Essas perguntas vinham em suas cabeças como pisca-alertas de perguntas que só agora querem ter alguma resposta. Havia uma tentativa irracional de cura, de que poderiam responder as perguntas que mal conseguiam pronunciar e que saberiam dar conta da situação. Caro engano. Nem a ferramenta correta queriam usar. A distância.
A rotina implacável, as responsabilidades da vida adulta e a falta de tempo para nutrir a relação foram, aos poucos, abrindo uma fenda entre elas. As diferenças, antes ignoradas, agora se mostravam como obstáculos intransponíveis. Tudo era argumento plausível e fundamentado para o fim. Só que era difícil para elas lidarem com a dependência mútua. Havia um fundo de esperança que a própria realidade do momento fez questão de expulsar. E fez o certo. Não havia espaço para fugirem, não havia mais lágrimas que pudessem suportar a vida conjugal. Não havia mais “elas”, e sim, cada uma em seu próprio solo.
Com os corações machucados, no entanto aliviados, pairou entre elas a frase para manterem a amizade. Mas elas não poderiam ser amigas, Mesmo desejando fingir. Desejaram continuar por perto, continuar uma cuidando da outra. A fantasia de que poderiam ser o que já foram um dia. Em um ensino médio há anos luz, no passado, guardado como uma linda lembrança. Se despediram, deram o último abraço, último toque, o último olhar. Mesmo que um dos lados espere o outro gostar novamente, por enquanto só é ela e isso basta. Por hora, por agora e por muito tempo bastará.
No fim, não puderam ser amigas, mesmo que desejassem muito fingir.

