Um ser patético em uma cidade barulhenta

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Parada no primeiro bar, peço a primeira bebida. Desce sem fazer cócegas, não arranha, não queima. Sinto como minha alma, um vazio que não noto quando começo a cair. Um vão que não há paredes para sentir suas mãos rastejar, tentando parar. Peço a próxima bebida e a próxima, até a hora que constato que não estou mais conectada com nada. Com ninguém, com qualquer coisa. Tudo gira, tudo vira, meu estomago sibilando entre ajeitar tudo para que eu vomite ou apenas me dando a permissão de sentir  as dores de tanto álcool que consumi.

Nessa noite, passei dos limites que eu nem sei que haviam, perdi o tom, a mão. Perdi quem me apoiava, perdi quem eu sou.

Queria agora uma lâmina, a mais afiada, a que me fizesse sentir prazer de sentir a dor, de desfalecer apenas com o seu corte. Eu queria sumir. Ser menos desprezível, menos mascarada. Eu queria realmente que ninguém tivesse a oportunidade de me conhecer. Todos teriam e seriam melhores. Seriam realmente felizes.

Com todo o álcool no corpo, pago minha conta e caminho sem destino, esperando sempre encontrar o meio para que todos possam viver livres de mim. Talvez uma lâmina fosse o mais rápido e concreto para que todos pudessem viver livres de mim. Sou um ser desprezivel e sei que viver comigo é um caos. Eu sou um caos. Uma bagunça e nada em mim é favorável.

Caminho sem destino, recebendo companhia dos que estão no mesmo estado que eu. Sem ninguém e não por não ter companhia e sim por não conseguirem aguentar tanto quanto nós mesmos não aguentam. Há um sentimento agridoce nisso que realmente sozinha não estou, mas nenhum deles acreditaria realmente nisso. Afinal, serei a infiltrada, estranha. Serei expulsa e nada poderia ser contra. Eu realmente sou.

Continuo caminhando, cabaleando pela quantidade de álcool. Tento similar cada detalhe das ruas que passo, cada edifício que vejo, mas só consigo assimilar mesmo os semáforos. Seus verdes, amarelos e vermelhos e mesmo assim teimo em passar no vermelho.

Acho que não é teimosia é apenas necessidade de ser abatida, de conseguir fugir de toda sensação de sufocamento, toda a sensação de inutilidade, de sentir que todos viverão melhor sem mim.

Até meu corpo viveria melhor com outra alma ou outra mente, outra psiquê. A minha é um repleto desastre e nem sei o motivo de ainda funcionar.

Mesmo cambaleando, sinto a única vontade real, de morrer. Não há carros suficientes para tirar o que me resta e nem quero mais.

Sempre penso que minha vida é como uma roupa velha que posso doar ou apenas jogar fora por estar empoleirada e cheia de rasgos que não serve para mais ninguém. Se não serve nem para mim, imagina para o outro? Oras, coisas que estão quebradas e não há conserto devem ser jogadas fora para ninguém ter que sofrer em tentar arrumar, afinal, sabemos que será uma tentativa frustrada e fadada ao erro.

No meio fio me sento, olhando a solidão da cidade na madrugada fria, aguardando ela ser a última. Cada lágrima que cai de meus olhos, são de frustração, de dor. Um amargor solidificado em lágrimas. Nesse meio fio, meu único desejo não sendo realizado. Mesmo doentio é a única vontade real que tenho. E nada nem ninguém se importa com tal desejo, acha loucura, acha piada. Mas só eu sei o que carrego, só eu sinto a dor que me consome, que me desmonta, me domina.

E se essa não for a última madrugada, pelo menos essa será a ultima história de um ser patético, andando em uma cidade barulhenta, que na madrugada é só silêncio. E é por aqui que ninguém mais saberá que um dia fui patética, que um dia eu realmente respirei.