Abro os olhos em uma manhã de sol ameno, entrando um fio de luz pela pequena abertura na janela. Me espreguiço, levanto da cama e vou preparar meu café.
Enquanto a água ferve, sento em uma cadeira, com o mesmo peso de quem queria ter permanecido estirada no local onde estava. Não sinto um pingo de vontade, de nada, para nada.
Olho para os lados, respiro profundamente e o vazio que ali habita é o mesmo vazio que ao olhar ao espelho noto. A solidão monstruosa que nos meus pensamentos são enormes e difíceis de combater, no dia seguinte são meras e pequenas dificuldades que não quis enfrentar por medo não deles, mas de mim.
Fico divagando sozinha sobre como devo organizar o dia, como devo ser quando preciso lidar com as pessoas, qual trilha sonora devo tocar assim que o café ficar pronto. Só, apenas a mesa, a cadeira, a água fervendo e eu.
A água quase no ponto para por no pó de café, continuo a vaguear, ainda sobre a solidão, o quanto me sinto só e ao mesmo tempo o quanto me sinto bem. É como se me amparasse e ao mesmo tempo me amordaçasse para não gritar.
Fico um tempo nesse looping de castigo e redenção, até o estalo da água fervida caindo do bule me acorda, levanto vou até o bule o pego e passo o café. Um sorriso sai no meio do processo, pego minha xícara e despejo o líquido amarronzado com aroma adocicado nele. Vou até a varanda e vendo a paisagem vou descurando o café quente.
O vento meio frio, pois estamos no inverno, vai cortando meu rosto, mesmo o sol iluminando, seus raios não aquecem tanto. Vou observando a paisagem cinza da cidade com a xícara de café em mãos e o monólogo sobre solidão ainda ali em mente.
Mesmo a paisagem parece solitária, fria e quase sem vida, não há tantas cores, além de sempre parecer corrida. Bebo mais um gole de café. Observo melhor e me vem um estalo, vou até o espelho do quarto e noto algo, distinto. Mesmo que a paisagem pareça sem vida, ela continua se movimentando, se transformando, se ela para, ela morre. Vou beber meu café e percebo que acabou, volto meus olhos para o espelho, até a última gota ela viveu.

