Nas minhas memórias, eis-me sentada naquela mesa da cozinha. Recordo-me da entrada de sua casa, onde a primeira coisa que fazia ao chegar era chamá-la no portão. Era incrível ver o sorriso caminhando lentamente para me receber. Daquele abraço caloroso e acalentador vinha a pergunta de como estava.
Sentada à mesa daquela cozinha, escutando histórias de um passado de que nem nascida era, escutando e imaginando as aventuras que aquela senhora delicada me contava, rindo e sorrindo com ela. Ahhhh, saudade! Era tempo de a senhora se levantar, passar um café e, infalivelmente, o bolinho de chuva, cuja lembrança não me nega o gosto nem a doçura.
Que loucura pensar que naquela mesa daquela cozinha, daquela casa tão próxima ao parque japonês, não faltava nada: nem tempo, nem amor, nem abraços, nem sonhos. Naquele espaço mágico, a vida brotava em cada canto. E eu, como um broto comum, fui regada com tanto amor e sabedoria que floresci, me tornando quem sou hoje, grata por ter tido raízes tão fortes e nutridoras.
E eis-me aqui, com a memória fresca de como nos cuidou e nos moldou para o mundo. Sabe, dona Catarina, do teu jardim floresceram, desabrocharam, amadureceram vários tipos de seres, mas todos tinham e têm algo em comum: não passaram o tempo em Chronos, como a regra dita. Vivenciamos o tempo em Kairós, tempos memoráveis e significativos. A senhora, dona Catarina, minha vó, minha “ba”, nos presenteou com sua vida, convidando-nos a fazer e ser parte do seu tempo em terra e em memórias.
Não fui e nunca serei a neta tão presente fisicamente; no entanto, para mim a senhora foi mais que vó, mais que mãe, filha, neta. A senhora foi o alicerce da família, nosso Norte seguro. E hoje é nossa estrela mais brilhante.
Nas minhas memórias, continuo sentada naquela cozinha, olhando a senhora feliz, tranquila, a me oferecer o que eu mais amava: sua presença constante e seu afeto incondicional.

