Novo ciclo…

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Em um domingo de céu acidentado, pela janela vejo a fina chuva cair, escuto o som dos pneus dos carros e motos cantando (desafinadamente) pela rua, sinto o cheiro do café saindo e do pão sendo torrado pelo vizinho em sua frigideira. Poucos tons são acrescentados neste dia, dia de um novo ciclo, entretanto são de bom tom.

Ao fechar os olhos e respirar profundamente, mil cenários aparecem. São cenas de glórias e ruínas, de torturas e bençãos. Momentos que apenas minha’lma recorda com todas as cores, gostos, cheiros, tatos e sons que aquele momento poderia passar. Alguns tinham cores avermelhadas, espessas, como sangue turvo, parecia um pantanal sanguinário onde se perde o ar ao ser puxado por esse lamançal. Um profundo e desconexo sentimento de um cenário tão nítido e tão real, de uma lembrança tão próxima e tão antiga. No entanto contrastava com outros cenários em ocre e cores vivas, aromas frutados e ácidos, toques aveludados e lisos, lugares que meu corpo físico e astral já passaram, já conheceram e se reconheceram.

Havia ali nesse pequeno espaço de tempo, nesse grão da ampulheta em que meus olhos fecharam, a infinidade de vidas que tive dentro de uma única. Como fui instrumento do meu amadurecimento e do meu reerguer.

Fui ao fundo do poço acreditando que a sombra e a escuridão eram meus únicos companheiros e que eram eles que mostravam o caminho que deveria tomar. Escavei a terra lamacenta e escura para encontrar-me com a dor, só dessa maneira notei o quão fundo tinha chego e que dali em diante a subida/retorno seria ingrime e muito, muito exaustiva.

Passei anos escondida e infinitamente menor que um grão de areia, que a cada vento ia se desfazendo, se desfalecendo. Porém um sopro de vida foi me dado, um presente, um sobressalto, não agarrei a chance, foi-me empurrado, não que isso seja algo ruim, longe disso, foi o impulso que precisava para do poço que cavei sair.

Ver o céu, a chuva, o cheiro da terra, as plantas, as cores, além das escuras e sem vida, foi e é o momento que vi minha insignificância, entretanto também vi que essa insignificância tinha e tem algo a mais para oferecer, além da dor e do amargor de seu silêncio. Percebi olhando para ampulheta quantos grãos fazem parte do que sou, e quantos ainda faltam para fazer parte dessas cenas.

Em um livro li “O milagre é ver milagres” e não é que tem toda razão? Abro meus olhos, dando um último respiro profundo, soltando com tranquilidade o ar, o novo ciclo chegou e com ela, novas cenas, novos recomeços, sendo o último ou não, que o novo ciclo seja de um domingo espirituoso, milagroso e em paz como o domingo de chuva fina.