Drinque das três

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Passa da meia noite o sono não vem, mesmo após tomar o comprimido receitado pelo médico. Enquanto espero o efeito da medicação, vagueio pela casa como um espírito perdido domado pelo vazio e pela certeza que não há sentido em viver.

O olhar sem alma vagando pelos móveis e janelas procurando um fio de vida para se segurar e permanecer em pé ainda quente. Porém, quanto mais procuro sentido em continuar em pé pulsando o coração, mais vontade dá em partir, pois o sentimento é de que nada é mais deserto, vazio e frio do que minha vida.

Ninguém impediria, não existe amor real para quem não sabe o que significa isso não é? Pelo menos é o que sei. Não tenho familiares, amigos ou pessoas que se importem, eu mesma não me importo. E se a dona desse vaso não se importa em quebra-lo em pedaços, não há motivo para terceiros terem compaixão.

Tentaram por vidas me moldarem, me manterem dentro de um quadrado que nunca farei parte. Não sou daqui, jamais serei e aceito isso, porém, não quero mais tentar, cansei disso, estou sem fôlego, estou sem forças, estou sem cor, sem fala e sem mais nada. Me aceito quebrada e esperava que todos aceitassem também, mas já percebi que a nota fora da partitura tocada, não harmoniza, não vinga. É o som que ninguém quer, que machuca, que estraga.

Se não há nada de importante, não há nada para ficar. Decidi ir para onde é meu lugar, onde ninguém sofrerá, se importará, se machucará e tampouco precisará me enforcar em regras que só são peças para o bem estar alheio e não o meu.

Olho o relógio, são três da manhã e continuo aqui, acordada em meio a pó e lágrimas. Sem me importar pego a cartela do medicamento, as retiro todas em minhas mãos, abro a garrafa de whisky despejo uma dose em um copo e trago junto com os comprimidos. Desse pela garganta dilacerando, já sabendo que será a última vez que os beberei.

Me deito no chão frio, agradecendo pela permissão de ali poder realmente dormir, dormir como jamais pude e agora jamais precisarei levantar.