Era oito horas da noite, o vento uivava entre as árvores que levava suas folhas a oeste em meio a ruas pouco movimentadas e frias.
Aquele frio externo transpassava a janela do meu quarto, fazendo minha espinha se recontorcer. Sentia o frio gelar minha alma, meu espírito e olhar.
Comecei a me cobrir com todas as cobertas que tinha, mas os calafrios não passavam. Sentia como se aquilo estivesse apenas esperando que embalasse no sono para passar, mas internamente estava apavorada demais para isso.
Horas passaram e passos longínquos comecei a ouvir, o frio na espinha se intensificou como se algo muito ruim fosse ocorrer. Me recontorcia cada vez mais na cama, a cada som mais próximo, com o silêncio aqueles passos pareciam ecos altos e tenebrosos.
Depois de alguns minutos os passos cessaram, não se ouvia mais nada, apenas o silêncio, no entanto não me acalmava, o filme de terror foi o escolhido para noite, mesmo que ninguém tenha ligado a TV. Isso parecia insano demais, porém meu corpo pedia calor e mesmo ofertando qualquer tipo de quentura, nada esquentava, e a sensação estranha aumentava.
Até que uma voz apenas disse – acalma-te, não venho por nenhum mal, desejais sempre o pior. Acalma-te. Me viro a porta e vejo um senhor com túnica preta, com uma postura de quem pede permissão por algo. Tentei dizer para ir embora, mas meu corpo por si só o pediu para entrar, como se o estivesse esperando naquela noite fria.
Como um cavalheiro, entrou no recinto e agradeceu, pediu para sentar na cadeira ao lado da cama, o que lhe consenti sem saber o porquê.
Fiquei alguns minutos apenas observando em silêncio e o senhor de túnica nada mais dizia. E como um grito da alma lhe perguntei como se o conhecesse – Por que hoje, por que agora? Eu tinha tanto… O senhor me interrompe e diz – As coisas são como são, mas isso não significa que interrompi algo para ti. O fluxo não para, ele apenas modifica o local.
Não fazia sentido para mim nada daquilo, tanto eu saber quem aquele senhor era e não lembrar seu nome, tanto quanto as suas filosofias. Eram tortas e muito poéticas, não sendo nada razoáveis para o momento e tampouco realistas.
– O que quer dizer com essa poesia toda e como eu conheço o senhor? Nunca ouvi nem mais novo, nem mais velho. Disse ao senhor com cada vez mais frio, me sentindo no polo norte. O senhor me olhou nos olhos e apenas me respondeu quem ele era. – Sou o luto, sou a dor de quem fica, sou o eterno para quem o quer e o fim para os que tem medo.
Ao escuta-lo compreendi as sensações, os temores, desviei o olhar e fiquei sem palavras por um momento até dizer – Então não tenho mais tempo, o relógio vital se extinguiu… Ele interrompe e diz – depende apenas do que desejas para ti. Meu trabalho é leva-los, isso não precisa ser algo temeroso. Estais com frio certo? O senhor estende as mãos – Não posso fazer muito, mas posso acalenta-lo.
Mesmo receosa, retribuo as mãos e as seguro. No mesmo instante, sinto meu corpo aquecer, era como se todo aquele frio de outono, início de inverno não existisse. Era um acalento diferente e que me acalmava. – Obrigada pelo calor, estava realmente precisando. Digo ao bom senhor, que permaneceu quieto me esquentando.
Volto a olhar seus olhos e agora mais acolhida, observo que eram diferentes, que por eles conseguia ver o universo, era belo. Ele notou minha maneira de olha-lo e perguntou – Gostou do que viu? Pois essa é a lembrança que presenteio a todos que preciso ajudar a passar. O universo é infinito, nele é guardado lembranças de milhares de vidas. E você faz parte desse universo e logo mais fará parte de outro tão belo quanto esse.
Fiquei tão impressionada com aquele olhar que suas palavras me comoveram, o medo do fim deu lugar a sensação de liberdade, os calafrios deram espaço ao calor, a insegurança deu espaço a esperança. Me senti melhor e o sono começou a vir, antes de meus olhos fecharem, dei uma última olhada para tudo, principalmente a foto na escrivaninha, não lembro porque a tinha, mas me fazia feliz. Abri um largo sorriso, terminei o olhar no senhor e em silêncio me ninhou em seus braços e me levou delicadamente a eternidade.
A noite permaneceu com os ventos, as ruas solitárias, o frio, o silêncio, mas algo já tinha mudado.

