Início de outono, começo a procurar minhas roupas de meia-estação. Entre croppeds e shorts, encontro algumas lembranças.
Pego o pacote fechado, sento-me entre o armário e a cama, desembrulho e ali me vejo tão nova quanto aqueles papéis. A cada toque uma sensação diferente, um desejo, uma dor e de tão doce que aquelas memórias eram, oras amargavam e tudo que fazia era chorar.
Após revirar aquele pacote tirar todas as lembranças, decido arrumá-lo da maneira em que se encontrava e guardá-lo novamente em seu esconderijo.
Troco-me, pego uma camiseta de manga longa fina com touca, por cima uma jaqueta de couro falso, uma calça jeans justa preta, saio do quarto, desço as escadas, pego minha chave, coloco meu tênis vermelho e vou para a rua preparada para caso o tempo esfrie de vez.
Caminho vagarosamente, pego o celular, plugo o fone de ouvido, vejo a hora e deixo a música rolar. Sorridente, continuo com as lembranças daquele pacote, cada toque e cada palavra daqueles papéis vieram como os sentidos que tenho. Meu paladar se enchera de doces afetos, de amargores tristes, palavras ácidas e lágrimas salgadas. Parecia até um caminho diferente, só de ter em mente aquelas longínquas, e de fato, belas lembranças.
A música quase se apagava em meus ouvidos, as lembranças tomavam conta até das vozes, dos gemidos, dos tilintares de teu sorriso, era incrível. Volto a minha realidade e percebo que por pouco não mudara o caminho, assim retorno ao meu destino e novamente essas benditas lembranças também retornam a casa.
Respiro profundamente, tentando focar na minha caminhada, porém ao respirar, meu olfato já inebriado, só sentia os aromas daquela época, do nascer e do pôr do sol, dos seus perfumes e das estações. Fecho os olhos e balanço a cabeça para voltar em mim, precisava chegar onde me comprometi estar.
Pontual, chego ao meu destino e lá está tu, sentada me esperando, fico admirando-a, minha visão turva, se mistura com as lembranças e a vejo tão bela, tanto quanto era, tanto quanto é. Me familiarizo com tais imagens, andando vagarosamente, para não perder nenhum detalhe de ti pelos meus olhos ruins.
Ao me próximar, tu se levanta, me abraça, sinto-me acolhida e com o toque de teu beijo, meu único desejo era que o tempo parasse, voltasse ao passado por alguns segundos só para que aquele beijo, aquele primeiro beijo complementasse este, pois cada toque, permanecia aguçado em minha memória. Tão aguçado, que a lembrança se misturou com a realidade e por fim, ao abrir os olhos, não precisava mais de nenhuma lembrança guardada, já que a maior delas estava ali ao meu lado, era meu presente e meu passado, um possível futuro, ali estava o amor.

