Naquele dia, o sol não estava apenas brilhando; ele pesava. O termômetro beirava os 30°C, e o ar dentro de qualquer lugar parecia ter sido mastigado antes de chegar aos pulmões. Sem pensar muito no destino, apenas querendo o alento de uma janela aberta, subi no primeiro ônibus que passou.
Fui direto para os fundos. Tenho essa mania, ou talvez seja um instinto de preservação. Acomodei-me no último banco à esquerda, o lugar que sempre me puxa, talvez por essa minha condição de ser canhota. Do lado esquerdo, o mundo parece fazer mais sentido para mim. Na outra ponta do banco, havia uma garota. Ela não devia ter mais que 20 ou 22 anos. Estava bem arrumada, com os cabelos negros e longos caindo sobre os ombros, e uma mochila apoiada no colo, que servia de suporte para um caderno e um lápis.
O que me prendeu não foi a beleza dela, embora fosse notável, mas o movimento das mãos. Eu, que ali estava com minha própria escrita, percebi logo a diferença. Ela não estava anotando palavras; os movimentos eram curtos, precisos, às vezes leves e circulares. Ela estava ilustrando. Comecei a esticar o olhar, movida por uma curiosidade quase infantil, tentando pescar um traço, uma sombra, qualquer coisa que revelasse o que nascia daquelas páginas. Eu queria desesperadamente descobrir o que ela tanto detalhava.
Mas ela parou. Como quem sente um olhar invasor ou apenas termina um pensamento visual, ela fechou o caderno e o guardou. Senti um baque, um desânimo real por não ter matado minha curiosidade. Respirei fundo, soltando o ar com uma tristeza boba, ainda na esperança de que ela voltasse a desenhar, mas a cada ponto que o ônibus parava, essa esperança minguava.
Nesse meio tempo, já que o papel estava escondido, passei a “desenhá-la” em minha mente. Notei a pele muito branca, como leite, as mãos longas e lisas, e o olhar fundo que parecia flutuar entre a preocupação e a ansiedade de quem não quer se atrasar. O ônibus começou a entupir de gente. Logo, o corredor era um muro de corpos e mochilas que cortava minha visão.
No fim da viagem, o que sobrou foi o isolamento. Ela se perdeu nos seus fones de ouvido e na tela do celular, e eu fiz o mesmo, voltando para a minha música e minha escrita. Ficamos ali, dois mundos apartados nas extremidades de um banco, separados por um mar de gente, pelos fones e pelo borrão que o meu astigmatismo insistia em colocar sobre a guria do ônibus.

