Sentada em cima do muro, pessoas para um lado, pessoas para o outro e eu ali, em cima do muro. Escuto um gritar daqui e o outro gritar acolá, cada qual com sua verdade e eu ali, sentada, contemplando uma chuva infinita de fatos.
Horas passam, levanto do muro e começo a caminhar por sua extensão e percebo o quanto a zona de guerra das verdades é longa. Quão difícil é ficar ali, naquele muro, sem pender para nenhum dos lado. Cada qual atirando balas de festim com quilos, quilos vomitados de verdades presas.
Continuava no muro caminhando por cima dele, incrivelmente pasmada pelo simples fato de ver milhares de pessoas, um mar de humanos, separados por um muro, onde aquele meio era uma mentira e que as verdades ditas, só as que estavam depois do muro e antes, era de fato, reais. E as que estão no meio? E eu? Não sou um fato? Não sou real? Não existem? Sentei-me novamente neste muro, ombros desmancham ao sentar, me fazendo quase cair para um dos lados. E um impulso melindrado, jogo meu corpo para trás, conseguindo meu equilíbrio de volta.
Respiro aliviada por não cair nessa guerra. E em um ato de coragem, levanto-me novamente, esperando achar um meio de descer do muro, sem precisar escolher um lado, afinal de contas, não acredito em verdade absoluta.
Caminhando, longas e longas horas, percebo que não era só eu em cima do muro, existiam outras, porém eles começaram a escolher seus lados, a defendê-los com unhas e dentes, e assim continuavam o loop infinito de tiros de balas de verdades presas.
Notando que não teria outra escolha a não ser decidir entre um lado do muro ou o outro, acabo decido permanecer ali, em cima do muro, até que um dia, um belo dia, destruam o separador, que as verdades se misturem e o único som que se escutará daquele momento em diante é da razão, e não mais de duas verdades separadas.

