Depois de tantas tentativas, resolvi desistir de me destruir. Percebi que… Não adianta, a dor não passará, só será transferida para outros.
Enfim, em comum acordo com meu inconsciente, assinei o contrato de desistência, apertamos as mãos e voltei a loucura de viver em sociedade novamente.
Passou-se meses, sorria, chorava, ajudava, era hipócrita, ranzinza, nervosa, um amor, carinhosa, era tudo que uma pessoa é…. Se não fossem personagens… Acordava sem saco para viver, sem saco para ver pessoas diluídas, pessoas iguais a minha frente. Era um bom dia aqui, um boa tarde acolá, tudo no esquema já programado, já condicionado do dia. Pedia meu café, sempre o mesmo pedido, até ganhava um agrado por ser cliente fixo, tanta bobagem não? Ia ao trabalho, era agradável com todos, mesmo eu querendo fugir dali, porém me condicionei, só preciso que o dia acabe.
Todos os dias nesse mesmo modelo, nesse mesmo programa, nessa mesma estrutura… Saco!!!! Estou farta!!!!
Cancela o acordo, já está na hora de voltar às tentativas de autodestruição. É muito mais simples pensar em como acabar comigo, do que como garantir que não tenha um enfarto pelos outros.
Assim, após o fim do dia programado, sentei-me em meu sofá e comecei a planejar tudo novamente, um plano em que não desse erro, onde tudo estaria de acordo e no fim a transferência de dor seria mínima. Horas passam, e no papel apenas o próprio branco reluzia, não conseguia pensar em nada…. incrível!!! Nada fazia sentido, nada parecia bom suficiente.
Nesse momento, beirando o amanhecer, a renúncia era clara… Não sei mais como me destruir, não sei mais…. Me calo espantada por apenas notar…
…Enquanto o sol batia pedindo permissão para entrar pela casa, percebi que não havia motivo para me destruir, tampouco fazer planos, afinal, aos poucos a sociedade fez isso por mim, me adoeceu, me enlouqueceu. Havia renunciado a vida, nenhum contrato poderia mudar isso, era apenas para não me autoflagelar, mas no fim me flagelei.
Respiro fundo, vou para a cama, deito, olho para o teto, vejo as pequenas faixas de luz solar que passam entre as miúdas aberturas da janela, penso, e penso….
Fui programada para sentir até a última dor, e reprogramei para não obedecer… No fim… Apenas automatizei a dor e agora só ele tem razão.

